O texto abaixo, da jornalista Marina Inês Nassif, foi publicado no jornal esquerdista Valor Econômico de hoje. O discurso udenista, moralista e prenhe de intenções golpistas está vivo na política brasileira e, infelizmente, vai longe. As eleições recentes para o DCE da UFRGS foram debatidas no Brasil inteiro não pela derrota em si, pois há, de fato, muito pouco capital em jogo. Há um considerável capital político. O que choca os progressistas, ou o que traz esperança para o velho coração de Lasier Martins, é a manifestação de sobrevida de práticas políticas retrógradas.
O mote "DCE para os estudantes, não para os militantes" carrega no seu bojo a criminalização da atividade política. Paradoxalmente, a solução da democracia seria menos participação. A solução da democracia seria, portanto, substituir os "partidários" por sujeitos universais.
Jogo jogado: "Na luta simbólica pela produção do senso comum, ou mais precisamente, pelo monopólio da nomeação legítima como imposição oficial da visão legítima do mundo social, os agentes investem o capital simbólico que adquiriram (...). Assim, todas as estratégias simbólicas por meios das quais procuram impor a sua visão das divisões do mundo social e da sua posição nesse mundo". "De um lado, está o universo das perspectivas singulares que, a partir do seu ponto de vista particular, da sua posição particular, produzem nomeações, deles mesmo e dos outros, particulares e interessadas (sobrenomes, alcunhas, insultos ou, no limite, acusações, calúnias, etc). (Bourdieu).
O Movimento Estudantil Liberdade faz exatamente isso. Com seu discurso universalizante, constroi um sujeito: "o estudante", que, a rigor, não existe. O faz para tentar se apoderar do poder de nomeação legítima e ter os dividendos políticos. Nada demais, se não o fizessem enganando os estudantes e destruindo a participação política.
A democracia doi. É difícil aprender a olhar nos olhos do inimigo e querer apenas sua derrota política, e não sua aniquilação física. Aqueles que sugerem que a salvação da democracia seria a assepcia, sugerem que se salva o paciente pela sua morte.
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O juiz da moral e a moral do juiz
Na retórica udenista, os julgamentos morais são reiterados e repetidos como verdade, mesmo que exagerados ou injustos, porque se trata também de fixar, perante um segmento da opinião pública, aquela parte como a legítima julgadora moral dos demais atores que se movem no cenário político. É aquele que domina a retórica agressiva, o depositário da verdade, o juiz da moral nacional, o fiscalizador — e todos os contrários à retórica são os objetos da desconfiança nacional, os desonestos e impatriotas.
O PT adotou um discurso com alta dose de moralismo e agressividade no períodoemque se manteve na oposição, embora tenha sido um partido de massas pelo menos até 1994, quando a opção pela “institucionalização” o transformou em algo mais parecido com um “partido de quadros”. Ainda assim, o discurso de oposição petista foi seduzido pelo udenismo. A mística da “moralidade” — entre aspas, sim, já que ela não passa de um discurso — levou o PT oposicionista a reduzir a sua prática política a uma oposição “moral”. Na verdade, tratava-se, no caso, de romper uma barreira de resistência eleitoral que o mantinha no segundo turno em todas as disputas presidenciais, mas o derrotava pela falta de adesão de classes médias mais conservadoras. Ainda assim, esse é umdiscurso tão fácil que contaminou e marcou a oposição parlamentar petista nos governos de Fernando Henrique Cardoso (1995-1998 e 1999-2002.
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O juiz da moral e a moral do juiz
A oposição brasileira não se livrou do fantasma udenista nem mesmo quando a ditadura extinguiu o quadro partidário e instituiu o bipartidarismo, em1966. O pluripartidarismo foi restabelecido no início da década de 80, a União Democrática Nacional (UDN) jamais voltou à luz do dia, mas o partido de Carlos Lacerda sempre foi o grande modelo de oposição no Brasil.
O udenismo pode ser definido como uma ação política firmada num discurso de muita agressividade, em que a retórica moral e moralista é tornada pública, reiterada e repetida de modo a tornar-se impositiva, um padrão que deve ser aceito como uma verdade para todos. O discurso é construído com base em interpretações sobre fatos que são refratados sob a ótica do moralismo e quase nunca os expressa com o seu exato tamanho, mas de forma muito amplificada, de acordo com a necessidade de propaganda política. A construção do discurso é, assim, emocionalizada — é pela raiva que tenta a adesão ao discurso. No passado — e no limite —, a emocionalização do discurso moral encontrou abrigo não apenas nos setores médios da sociedade, mais vulneráveis a ele, mas também nos setores militares. A UDN foi o braço civil do golpe de 64; o propagandista do movimento político e militar; o partido que mobilizou os setores médios e conservadores. O udenismofez propaganda política para tentar a conquista o poder pelas urnas, mas não só isso: também para cooptar os aparelhos de coação do Estado, se a estratégia eleitoral fracassasse. O udenismo, portanto, trafegou tanto pelas vias democráticas como por instâncias não democráticas de ascensão ao poder. Na retórica udenista, os julgamentos morais são reiterados e repetidos como verdade, mesmo que exagerados ou injustos, porque se trata também de fixar, perante um segmento da opinião pública, aquela parte como a legítima julgadora moral dos demais atores que se movem no cenário político. É aquele que domina a retórica agressiva, o depositário da verdade, o juiz da moral nacional, o fiscalizador — e todos os contrários à retórica são os objetos da desconfiança nacional, os desonestos e impatriotas.
O PT adotou um discurso com alta dose de moralismo e agressividade no períodoemque se manteve na oposição, embora tenha sido um partido de massas pelo menos até 1994, quando a opção pela “institucionalização” o transformou em algo mais parecido com um “partido de quadros”. Ainda assim, o discurso de oposição petista foi seduzido pelo udenismo. A mística da “moralidade” — entre aspas, sim, já que ela não passa de um discurso — levou o PT oposicionista a reduzir a sua prática política a uma oposição “moral”. Na verdade, tratava-se, no caso, de romper uma barreira de resistência eleitoral que o mantinha no segundo turno em todas as disputas presidenciais, mas o derrotava pela falta de adesão de classes médias mais conservadoras. Ainda assim, esse é umdiscurso tão fácil que contaminou e marcou a oposição parlamentar petista nos governos de Fernando Henrique Cardoso (1995-1998 e 1999-2002.
Guindado ao poder federal pelo voto, o PT abandonou o discurso udenista. Em 2005, com o escândalo do mensalão, foi descaracterizado como a parte política que dominava o discurso moral — aquele que definia padrões de moralidade para os demais do cenário político. Ascenderam à posição os dois principais partidos oposicionistas, o PSDB e o então PFL, hoje DEM. O partido do governador José Roberto Arruda (DEM-DF) assumiu o papel udenista com mais agressividade e trazia no bolso enorme similaridade com a velha UDN: é um partido conservador, de quadros, com facilidade de penetração tanto nas classes médias como em setores militares.
Não existiam muitas alternativas para um partido sem lideranças e em declínio do que aproveitar essas características e tentar assumir o lugar de guardião da moralidade. Todo o embate do DEM feito contra o governo do presidente Lula foi moral e moralista. Esse mesmo padrão foi seguido pelos partidos oposicionistas aliados no Congresso, que coincidentemente eram quase os mesmos que davam sustentação ao único governador eleito pelo PFL. O discurso de alta dose de agressividade e moralismo foi o adotado também pelo PSDB e pelo PPS. O chamado Escândalo do Mensalão, de 2005, nunca deixou de ser usado por esses partidos contra o PT e Lula comoumpecado coletivo, a ser purgado por todos os petistas e todos os integrantes de partidos aliados; o recurso às CPIs fazia parte da agressividade que os credenciaria, pelo menos junto a parte da opinião pública, como os fiscais morais da política. Toda a estratégia política da oposição foi montada com essa perspectiva, e a partir do episódio moral que subtraiu de vez do PT as credenciais de juiz moral da política brasileira.
Oescândalo do Distrito Federal, que está sendo chamado de Mensalão do DEM, tende a forçar a mesma situação do chamado Mensalão de 2005: o esvaziamento de um discurso moral udenista. Isso acontece de forma mais precoce, já que não precisou o partido voltar ao poder para que isso acontecesse. O DEM tende a perder a agressividade nesse discurso — e é difícil imaginar que o PSDB e o PPS não sigam o mesmo caminho. É um dado importante da campanha eleitoral que se avizinha: os dois lados da disputa passam a ter as mesmas armas para um discurso moral agressivo.
Não existiam muitas alternativas para um partido sem lideranças e em declínio do que aproveitar essas características e tentar assumir o lugar de guardião da moralidade. Todo o embate do DEM feito contra o governo do presidente Lula foi moral e moralista. Esse mesmo padrão foi seguido pelos partidos oposicionistas aliados no Congresso, que coincidentemente eram quase os mesmos que davam sustentação ao único governador eleito pelo PFL. O discurso de alta dose de agressividade e moralismo foi o adotado também pelo PSDB e pelo PPS. O chamado Escândalo do Mensalão, de 2005, nunca deixou de ser usado por esses partidos contra o PT e Lula comoumpecado coletivo, a ser purgado por todos os petistas e todos os integrantes de partidos aliados; o recurso às CPIs fazia parte da agressividade que os credenciaria, pelo menos junto a parte da opinião pública, como os fiscais morais da política. Toda a estratégia política da oposição foi montada com essa perspectiva, e a partir do episódio moral que subtraiu de vez do PT as credenciais de juiz moral da política brasileira.
Oescândalo do Distrito Federal, que está sendo chamado de Mensalão do DEM, tende a forçar a mesma situação do chamado Mensalão de 2005: o esvaziamento de um discurso moral udenista. Isso acontece de forma mais precoce, já que não precisou o partido voltar ao poder para que isso acontecesse. O DEM tende a perder a agressividade nesse discurso — e é difícil imaginar que o PSDB e o PPS não sigam o mesmo caminho. É um dado importante da campanha eleitoral que se avizinha: os dois lados da disputa passam a ter as mesmas armas para um discurso moral agressivo.
Existe uma diferença fundamental entre o moralismo udenista e a ética. O moralismo udenista aumenta, exagera, cria situações-limite — e relativiza a ética, ao distorcer fatos e forçar julgamentos coletivos pautados por fortes ondas de comoção. Por esses critérios moralistas, é feita uma confusão intencional entre moral e ideologia — passam a ser taxados como imorais opções político-ideológicas justificáveis numa democracia. Essas situações são facilitadas quando o partido — ou o espectro político — que se coloca como juiz da moralidade consegue bom trânsito em setores conservadores. Essa confusão produziu muitos danos políticos nos últimos governos. Que o escândalo do DF permita a retomada da racionalidade do debate político.



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